01/06/21 - Rede de monitoramento COVID Esgotos conta com apoio da FAPDF para rastrear coronavírus em Brasília



No DF, o projeto conta com fomento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)

*Com informações da Agência Nacional de Águas e da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF)


Divulgado na última semana pela Agência Nacional de Águas (ANA), o Boletim de Acompanhamento nº 01/2021 da Rede Monitoramento COVID Esgotos, com dados até 13 de maio, semana epidemiológica 19, identificou uma redução da carga viral do novo coronavírus tanto em Belo Horizonte quanto em Brasília na última medição. O documento foi divulgado pela Agência Nacional de Águas (ANA), que coordena a Rede Monitoramento COVID Esgotos.

Com um histórico de medições iniciado em abril deste ano, Brasília apresentou uma carga de 7,7 trilhões de cópias do novo coronavírus por dia, em 13 de maio, em oito estações de tratamento de esgotos (ETEs), que atendem à cerca de 80% da população do Distrito Federal. Esta é a menor carga do novo coronavírus observada no esgoto do DF, que chegou a registrar quase 200 trilhões de cópias por dia em 15 de abril. Desde então, os valores vêm caindo a cada semana, mas as cargas virais permanecem elevadas.

Na semana epidemiológica 19 (9 a 15 de maio), quatro dos oito pontos monitorados no Distrito Federal apresentaram uma carga viral acima de 25 mil cópias do vírus por litro: ETE Gama, ETE Planaltina, ETE Riacho Fundo e ETE Samambaia. Na semana 18 (2 a 8 de maio), essa situação foi observada em sete dos oito pontos, com a exceção da ETE Brasília Sul, que recebe esgotos de mais de 916 mil habitantes e é a maior estação de tratamento de esgotos no DF.

Em Brasília, o projeto conta com fomento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A pesquisa conta com atuação de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e parceria da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb).

A professora do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental (ENC) da UnB Cristina Brandão atua no trabalho de monitoramento e é a coordenadora do projeto de pesquisa aprovado junto à FAPDF. Ela explica que a utilização da ferramenta de epidemiologia baseada no esgoto é importante para permitir rastrear o caminho do vírus, identificar regiões com maior incidência, inclusive com mais rapidez do que a partir da testagem de pessoas. “Os testes mostram a situação, geralmente, daqueles indivíduos que manifestaram sintomas e buscaram realizar o diagnóstico. Mas, ao analisar o esgoto, é possível seguir o rastro do vírus em toda a população, já que é comprovado que os portadores do coronavírus excretam carga viral”, explica.

A pesquisadora destaca que não há possibilidade de contaminação pelo esgoto, pois o conhecimento científico mostra que o vírus não se mantém ativo nesse ambiente. No entanto, é possível, pelo mapeamento de RNA das amostras coletadas, identificar por onde ele passou, em quais regiões ele se encontra em maior concentração, entre outras informações que podem embasar a tomada de decisões no enfrentamento da pandemia.

Epidemiologia com base em esgoto é uma ferramenta que já vem sendo utilizada para outras finalidades. É o caso do rastreamento de drogas para fornecer informações estratégicas à Polícia Federal. O professor Fernando Sodré, do Instituto de Química da UnB, realiza essa pesquisa e é parceiro no trabalho de monitoramento de Covid-19 em Brasília. “Nós, aqui no ENC/UnB, tínhamos equipamentos necessários para essa pesquisa e o professor Sodré já tinha expertise com essa ferramenta epidemiológica, então nós unimos forças”, explicou Cristina Brandão.

Ela destaca, ainda, que o foco atual do monitoramento é a Covid-19, em virtude da pandemia e seu caráter de emergência sanitária. No entanto, a metodologia pode ser utilizada para monitoramento de diferentes organismos patogênicos. “Um dos objetivos dessa rede é funcionar como método de monitoramento para outras ameaças e fornecer informações qualificada aos órgãos competentes, podendo inclusive alertar antes que uma nova epidemia se instale”, completou Brandão.

Hoje, em Brasília, a Rede de Monitoramento Covid Esgotos contempla oito ETEs, o que equivale a cerca de 80% das Regiões Administrativas. Para a realização desse trabalho, a equipe conta com a parceria essencial da Caesb. São eles que realizam as coletas semanais de amostras e as entregam à equipe de estudos da UnB. A Companhia também fornece, semanalmente, dados sobre a vazão de esgoto das ETEs, informações essenciais para a realização do monitoramento e a geração de resultados e indicadores.

“O trabalho é fruto de mais uma parceria bem-sucedida entre a Caesb e UnB que, historicamente, atuam conjuntamente em pesquisas importantes nas áreas de saneamento ambiental, recursos hídricos, meio ambiente e saúde pública. No DF, esse estudo se torna ainda mais representativo e promissor devido ao fato de a Caesb possuir elevada cobertura do sistema de esgotamento sanitário: 91% dos habitantes possuem coleta e tratamento de esgoto, permitindo que essa população atendida seja monitorada”, explica Fuad Moura Guimarães Braga, chefe da Assessoria de Projetos Especiais e Novos Negócios da Caesb.

Ele destaca que a alta cobertura do sistema de esgotamento é um dos fatores que aponta o potencial do projeto para subsidiar as políticas de enfrentamento e gestão. “A quantificação da carga viral do coronavírus no esgoto bruto apresenta-se como uma alternativa ao monitoramento da Pandemia de Covid-19, sendo um procedimento complementar à testagem clínica em massa da população, por exemplo. Os resultados iniciais indicaram um comportamento similar com relação à variação da concentração do SARS-CoV-2 detectada no esgoto bruto e o número de casos confirmados de Covid-19 informado pela Secretaria de Saúde do DF, ao longo das semanas epidemiológicas avaliadas, reforçando o que já foi observado em outras cidades do Brasil e do mundo que praticam esse tipo monitoramento”.

Situação em outras capitais

Já em Belo Horizonte, apesar da diminuição observada, a carga viral na capital mineira permanece num patamar elevado e, em 11 de maio, chegou a 4,4 trilhões de cópias do novo coronavírus por dia. Este é o menor valor desde 13 de outubro de 2020, quando foram registrados 1,6 trilhão de cópias no esgoto de Belo Horizonte com base no monitoramento realizado em duas estações de tratamento de esgoto (ETEs), que atendem a cerca de 70% da população belo-horizontina.

Dentre os seis pontos considerados em Belo Horizonte, em dois deles a concentração de novo coronavírus se manteve elevada – acima de 25 mil cópias por litro – na semana epidemiológica 19 (de 9 a 15 de maio) nos interceptores dos córregos Cardoso e Vilarinho. Na semana epidemiológica 18 (2 a 8 de maio), cinco dos seis pontos registraram mais de 25 mil cópias por litro, conforme o Boletim nº 01/2021.

Diferente de Belo Horizonte e Brasília, Curitiba registrou aumento nas cargas virais observadas nas últimas quatro semanas. Em 11 de maio, foram registradas 12,6 trilhões de cópias do novo coronavírus por dia, um patamar ainda elevado. Esse total considera as cargas medidas nas cinco ETEs monitoradas na capital paranaense. Desde o início do histórico de medições, em 2 de março, esse foi o segundo maior valor identificado no esgoto curitibano. Apenas em 27 de abril houve uma carga viral maior: 19,8 trilhões de cópias por dia.

Em termos de concentração do novo coronavírus no esgoto de Curitiba, em quatro dos cinco pontos monitorados foi observada uma concentração acima de 25 mil cópias do vírus por litro nas amostras coletadas na semana epidemiológica 19 (9 a 15 de maio): nas ETEs Belém, Padilha Sul, CIC Xisto e Santa Quitéria, que recebem o esgoto de mais de 612 mil pessoas. Somente na ETE Atuba Sul, que recebe esgoto de aproximadamente 52 mil habitantes, a concentração ficou entre 4 mil e 25 mil cópias. Já na semana 18 (2 a 8 de maio), três dos cinco pontos registraram concentração acima de 25 mil cópias – patamar elevado.

Para o Rio de Janeiro, os resultados de cargas virais no esgoto ainda não estão disponíveis e a mensuração se dá com base nas concentrações, em milhares de cópias do novo coronavírus por litro, tanto nas ETEs quanto nas estações elevatórias de esgoto (EEE) monitoradas. Os resultados das últimas semanas têm apontado para uma tendência de aumento nas concentrações do novo coronavírus no esgoto da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, conforme pode ser percebido nos gráficos de cada ponto que constam do Boletim nº 01/2021.

Além disso, as concentrações estão elevadas – acima de 25 mil cópias do vírus por litro – em todos os dez pontos monitorados, sendo quatro ETEs na capital fluminense (Alegria, Barra, Penha e Vargem Grande), uma em São Gonçalo (ETE São Gonçalo) e uma em São João de Meriti (ETE Sarapuí). Ainda na capital, nas estações elevatórias Leblon e André Azevedo, assim como nas ETEs Pavuna e ETIG, as concentrações estão em níveis elevados. Esse situação se manteve nas semanas epidemiológicas 18 (2 a 8 de maio) e 19 (9 a 15 de maio).

A Rede Monitoramento COVID Esgotos, lançada em webinar realizado em 16 de abril, acompanhará as cargas virais e concentrações do novo coronavírus no esgoto de seis capitais e cidades que integram as regiões metropolitanas de: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. Esse trabalho, uma das maiores iniciativas brasileiras de monitoramento da COVID-19 no esgoto, busca fornecer subsídios para auxiliar a tomada de decisões para o enfrentamento da pandemia atual.

O Boletim 01/2021 da Rede se soma aos 34 Boletins de Acompanhamento produzidos no contexto do projeto-piloto Monitoramento COVID Esgotos, realizado com base em amostras de esgotos em Belo Horizonte e Contagem (MG). As lições aprendidas com o projeto-piloto são a base para os trabalhos da Rede.

Sobre a Rede Monitoramento COVID Esgotos

A Rede Monitoramento COVID Esgotos tem o objetivo de acompanhar a presença do novo coronavírus nas amostras de esgoto coletadas em diferentes pontos do sistema de esgotamento sanitário de seis capitais e cidades que integram as regiões metropolitanas de: Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Recife e Rio de Janeiro. A rede busca ampliar as informações para o enfrentamento da pandemia de COVID-19. Nesse sentido, os resultados gerados sobre a ocorrência do novo coronavírus no esgoto das cidades em questão podem auxiliar na tomada de decisões por parte das autoridades locais de saúde.

Com os estudos, o grupo pretende identificar tendências e alterações na ocorrência do vírus no esgoto das diferentes regiões monitoradas, o que pode ajudar a entender a dinâmica de circulação do vírus. Outra linha de atuação é o mapeamento do esgoto para identificar áreas com maior incidência da doença e usar os dados obtidos como uma ferramenta de alerta precoce para novos surtos, por exemplo.

A vigilância do novo coronavírus no esgoto também pode auxiliar nas tomadas de decisão relacionadas à manutenção ou flexibilização das medidas de controle para a disseminação da COVID-19. Também pode fornecer alertas precoces dos riscos de aumento de incidência do vírus de forma regionalizada.

A Rede é coordenada pela ANA e INCT ETEs Sustentáveis com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e conta com os seguintes parceiros: Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal do Ceará (UFC), Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além disso, a Rede conta com a parceria de companhias de saneamento locais e secretarias estaduais de Saúde.